APRENDIENDO A ESCRIBIR

O Olho de Astarthé

Primeira parte: Um novo começo

O Olho de Astarthé
O Olho de Astarthé Juan A. Sánchez

Tinha prometido a mim mesma que jamais me envolveria no trabalho de vigilante da minha mãe. Não tinha a mínima intenção de continuar o seu legado. Mas, há dez anos, no seu leito de morte, a mamã fez-me prometer que, pelo menos, protegeria O Olho de Astarthé, uma antiga relíquia tartéssica, porque assegurava que naquela joia se concentrava um poder que, se caísse em mãos erradas, poderia chegar a destruir o mundo.

A mim parecia-me uma velha lenda perdida no mistério da civilização de Tartesso e nunca lhe prestei muita atenção, mas, quando desapareceu há uns dias do museu arqueológico, começaram a suceder-se fenómenos estranhos associados a roubos e... aqui estou.

Aterrei junto ao Giraldillo após horas a patrulhar a cidade. A minha primeira patrulha e tinha resultado num fracasso. De qualquer modo, ainda não sei o que estava a fazer. Aqui já operam super-heróis como Umbrío, por exemplo. Embora sempre tenha achado que um tipo com um aspeto tão tétrico é mais apropriado para uma cidade como Gotham do que para Sevilha. Não sei como a minha mãe e ele puderam formar uma dupla de justiceiros tão famosa naquela época.

O melhor seria voltar para casa, ou assim pensei. Estava exausta de voar de um lado para o outro durante horas à procura de não sei o quê. Já não o fazia há anos, desde que a minha mãe me mostrou quem era e começou a treinar-me para usar os nossos poderes. Ela sonhava que eu continuasse a tradição familiar até falecer por culpa deste trabalho e, embora sempre quisesse que eu continuasse a sua missão, sempre me recusei a pôr a máscara. Até agora.

Descolei com a mente posta na cama e em tirar este disfarce estúpido que a mamã punha para dar uma lição aos vilões. Para ela, parecia um uniforme digno da sua luta contra o crime; para mim, um trapo que não vestiria nem para ir à praia. Quando o experimentei esta manhã, lembrei-me de uma daquelas modelos de revistas atrevidas, mas naquela época era comum que as supers vestissem assim. Enfim, até que todo este assunto acabe e possa voltar à minha vida, terei de me resignar a luzir assim.

Mal saí da torre, vi uma luz estranha mesmo do outro lado da avenida, por isso desci imediatamente para verificar o que poderia ser. Com a pressa e a minha falta de prática, quase atropelei um caixote do lixo. Mas o que ali vi não podia ser mais estranho.

Junto ao velho muro do edifício dos Correios estava a formar-se uma espécie de tornado de luz muito estranha, de uma tonalidade escura, pelo qual saiu nada menos que Aracné Vermella, a dama do Maresme, uma conhecida supervilã e ladra internacional, com o seu brilhante fato-gabardine vermelho e o seu chapéu de aba larga que mal deixava ver a máscara preta, encimado pela sua característica pluma negra que era a sua marca pessoal. Mas o importante era o que trazia na mão: nada menos que O Olho de Astarthé, de onde emanava a estranha luz que tinha formado aquele turbilhão. Embora não me apetecesse, devia recuperá-lo e acabar com todo este assunto de uma vez.

—Ora veja —exclamou ao ver-me, com o seu sotaque carregado. —Parece que o Carnaval se antecipa este ano, embora não saiba se sabes que esse disfarce passou de moda há uma década.

—Tu também não andas no último grito da moda, fofinha —respondi desafiadora. —Também aderiste à moda vintage?

—Pode ser —rematou num tom que me pareceu entre irónico e trocista. —Não sei se és uma miúda muito esperta ou uma completa idiota que quer imitar outra idiota morta.

—Talvez esta «idiota» —respondi-lhe furiosa —te surpreenda ao meter-te na choldra e ao devolver essa joia ao museu a que pertence.

—He! Há dez anos, a Fulgor original quis surpreender-me e liquidei-a facilmente. Porque achas que não acabarei com uma imitação barata?

O que ela acabara de dizer deixou-me petrificada. Aquela tipa era a assassina da minha mãe?! Por muitos anos que passem, não consegui tirar da cabeça a imagem da mamã a chegar a casa gravemente ferida. Eu tinha apenas 14 anos e só dois anos antes é que ela me revelara o seu segredo e começara a instruir-me.

Eu era apenas uma criança. Nessa noite, ela entrou pela janela do sótão e caiu de joelhos enquanto tirava o capuz do seu fato. Nunca esquecerei a sua expressão de dor. Abalancei-me sobre ela e ela abraçou-me, deu-me um último beijo; disse-me o orgulho que tinha em mim e pediu-me que a ajudasse a mudar de roupa para que ninguém descobrisse a sua identidade secreta. A lição número um foi sempre que manter esse segredo era a prioridade máxima para manter a salvo aqueles que amamos.

Até mantive o segredo do papá, que continua sem saber quem era realmente a mulher pela qual continua apaixonado e que se refugiou em longas ausências no trabalho para suportar a perda.

Estava absorta nestes pensamentos quando a minha oponente se lançou sobre mim e, a muito custo, consegui esquivar-me. Quase conseguiu acertar-me com um murro na cara. O que não pude evitar foi um pontapé que me projetou contra o velho muro da catedral. Nunca nada me tinha atingido com tanta força.

Dispunha-me a retribuir o ataque enquanto recuperava o fôlego, quando a sirene de um carro de patrulha nos interrompeu.

—Alto! Polícia —disse um agente que se dirigia a nós, escoltado pela sua colega que nos apontava a arma regulamentar.

O instante de confusão foi aproveitado pela minha oponente para invocar o poder da joia para criar outro vórtice, pelo qual desapareceu.

—Está detida! —disse um terceiro agente à paisana que vinha do lado oposto da avenida, de arma na mão, enquanto com a outra me mostrava o distintivo. Mas eu não podia deixar-me apanhar. Se aquela tipa era a assassina da minha mãe, este assunto tinha deixado de ser da competência da polícia.

Saí a correr em direção ao Postigo del Aceite. Pude ouvir os disparos, mas sem dúvida eram de aviso, porque não ouvi nenhum impacto. Ao chegar ao arco, decidi jogar ao gato e ao rato; por isso, ao cruzá-lo, dei um salto que me permitiu chegar ao terraço logo acima, escondendo-me atrás de um parapeito cheio de vasos de sardinheiras.

Não havia dúvida. A minha primeira patrulha tinha resultado num completo fracasso.

Suscríbete a este blog para recibir nuevas historias en tu correo

Juan A. Sánchez

Subscreve Juan A. Sánchez para reagir

Subscrever

Comentários

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar!

Subscreve APRENDIENDO A ESCRIBIR para receber atualizações diretamente na tua caixa de entrada